Do outro lado

Hoje trago um Guest Post, da minha linda amiga Renata, falando sobre como foi receber a notícia de que a Alice tinha nascido, e tinha síndrome de Down.

“Acho que foi depois de ler algumas mães comentando no NVCA que um dos grandes medos delas era contar para os amigos que seus bebês tinham síndrome de Down, que eu resolvi responder um comentário. Eu decidi contar para essa mãe – que parecia especialmente assustada – como as coisas acontecem “do outro lado”: o lado dos amigos. Eu e a Carol somos amigas há bastante tempo, não somos amigas desde sempre, mas nossa amizade é bem diferente. Ela é uma das poucas pessoas que eu sempre posso falar a verdade sem medo. E eu resolvi contar a verdade para aquela mãe também.

Quando a Carol me pediu para transformar o comentário em post, foi que eu notei que apesar das nossas vidas terem tomado rumos bem diferentes, esses rumos tiveram ritmos bem parecidos. Eu e a Carol ficamos “grávidas” quase ao mesmo tempo. Ela da Alice, e eu da ideia de sair pelo mundo para estudar sobre museus. Enquanto a Carol escolhia nomes, eu escolhia universidades. E durante os nove eternos meses em que a gente esperou para os nossos sonhos se tornarem realidade, nós trocamos ideias, dividimos os medos, e, principalmente, lembramos uma a outra que tudo ia ficar bem. O engraçado é que nossos bebês nasceram quase ao mesmo tempo: enquanto a Alice chegava ao mundo, eu saia do meu. Enquanto a Carol “chegava à Holanda“, eu estava literalmente indo para lá. E no aeroporto, eu recebi o e-mail da Carol que contava que a Alice tinha síndrome de Down. Eu confesso que fiquei chocada e chorei… Bem, eu não só chorei naquele momento, como eu atravessei o Atlântico chorando. As comissárias de bordo acharam que eu era esquisita? Obviamente. Os meus vizinhos de cadeira acharam que eu tinha sérios problemas nas glândulas lacrimais? Muito provavelmente. Mas eu realmente não me importei naquele momento. O choro vinha muito “lá de dentro” para eu conseguir controlar.

Quando eu cheguei na Holanda, eu também me senti bem perdida. De início, todo mundo só falava em holandês comigo. (Olha a minha cara de holandesa, só que não…) E nas horas e horas que eu esperei no aeroporto, eu tive tempo de pensar. Por que tanto choro? Pling! A resposta veio. Nós passamos a vida achando que temos o controle de tudo, e quando a vida vai e muda o nosso roteiro sozinha (nem sempre para melhor, nem sempre para pior, as vezes só para o diferente), a gente lembra que nunca teve o controle. E isso dói. E muito. Além disso, quando você é realmente amiga de alguém, qualquer coisa que acontece com essa pessoa é como se acontecesse contigo. Se eu pudesse, todos os meus amigos estariam sempre felizes, 24 horas por dia, 7 dias por semana, todos os seus sonhos se tornariam realidade, e eles acabariam passando a vida enrolados em plástico bolha. Mas nada disso é possível. E eu nem podia dar um abraço na Carol; dizer que tudo ficaria bem. Eu estava literalmente do outro lado do mundo.

E o pior, como eu iria responder o e-mail dela que começava com “Amiguinha,”—o jeito que a Carol sempre me chama quando ela vai falar algo bem sério. Eu morri de medo de escrever algo “errado”, ou algo que faria ela se sentir triste, ou que ofendesse. Mas lá no fundo eu sabia que a Alice é um bebê, e não um acontecimento. Então a única coisa que eu lembro foi que eu perguntei qual era a cor dos olhos dela. Eu não sei se foi o certo a se perguntar. Mas eu sabia que muitas pessoas iriam reagir super mal, falar coisas que iam descer meio torto, e algumas iam falar coisas lindas e certas. E a minha curta experiência de vida me diz que muitas vezes você tem que “traduzir” o que as pessoas estão dizendo para você. As coisas horríveis que elas dizem, podem ser um “eu te amo e estou contigo” meio “esculhambado”. Uma grande parte dos seus amigos e colegas também vai precisar ser educado: “SD não é doença.” “Não é nada legal chamar meu bebê de doentinho.” Bem, dê um pouquinho de tempo para eles, porque você também precisou do seu. Você também precisou aprender. Eu também precisei aprender. Ensine a eles tudo o que você aprendeu.

E acabou que eu aprendi tanto com a Carol e a Alice, que até fiz uma pesquisa sobre inclusão de crianças com SD (viu, eu já falo até SD! Estou “in”!) em museus. E de tanto mandar links sobre qualquer coisa relacionada a SD para a Carol, que eu achei que ela ia me mandar pastar, agora sou eu que recebo links dos meus amigos. E agora sei que se eu quero trabalhar com crianças em museus, eu quero trabalhar com TODAS as crianças.

Outra coincidência, depois de algumas horas na Holanda, eu peguei o meu vôo para a Escócia. Um país bem diferente do que eu imaginei, mas que já virou minha nova casa. Aposto que a Carol também chegou na Escócia: diferente do que ela imaginou, mas não é mais uma viagem. É um lar.

Eu só queria contar para vocês como as coisas acontecem aqui do lado dos amigos, e dizer que tudo fica bem por aqui também. Não tenham medo de contar a novidade para seus amigos! Apesar de nem sempre falar a coisa certa, amigos de verdade estão sempre do seu lado, dispostos a ajudar e preparados para aprender.”

avental

Alice com 5 meses, usando o babador da “Nessie” (apelido do monstro do lago Ness), presentinho da tia Renata ❤

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12 comentários sobre “Do outro lado

  1. Fatima Alves da Silva disse:

    Realmente, criar filhos, sempre será uma caixinha de surpresas, seja, eles como forem, serão sempre pessoas como nos mesmas, precisando de apoio a todo o momento. E saiba que mesmo, os ditos “normais”, sempre precisam de atenção, afeto, carinho, e pricipalmente, muito,mais muito AMOR , e devemos ficar ligados em todas as suas necessidades especiais, pois cada filho, ou filha, cada pessoa ao nosso redor precisam que estas “necessidades” especiais seja atendidas, pois cada individuo é único e especial.
    Já dizia Fernando Pessoa
    “Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?”

  2. Izabelly disse:

    Eu como uma simples leitora do site profissional da Carol, que me encantei com os posts sobre o casamento, a noticia da gravidez, o making of da bebê pig e o post lindo sobre a bebê linda e especial com o cromossomo a mais fico cada dia mais encantada e madura a respeito do assunto, posso dizer que ja aprendi muito com a Alice. 🙂

  3. Juh Guimarães disse:

    realmente a gente nao controla a vida.
    interessante isso.

    e mais interessante, que é preocupação normal de pais, ainda mais diante de uma mudança de vida, a gte superprotege, no sentido de sentimento mesmo, e não pára pra pensar nesse “lado dos amigos”…e pra mim, foi super importante ler isso.
    saber dar tempo a eles também. pq como todos no começo, sempre agimos com uma certa ignorancia. ne!?
    tambem tivemos e ainda temos mto que aprender.

    mto lindo isso renata!
    obrigada por compartilhar!

    beijoooss

  4. Heloísa Sobral Martins disse:

    Que lindo!
    Este post é uma realidade meus amigos choraram comigo e hoje é só sorriso, mimo, presentinhos, todos são apaixonados pela Mariana. Recebi muitos ” eu te amo” esculhambados e tive que traduzir muitas,muitassss frases, mas no fundo todos sente um amor gigantesco e que cresce a medida que Mari cresce, hoje todos vibram quando ela supera ou chega a uma fase! É lindo de ver e viver!
    Mesmo não conhecendo Alice, sinto um carinho enorme e faço questão de ler e compartilhar, pois sinto que assim todos estaremos na mesma sintonia e destino…seja indo pra Holando ou chegando à Escócia!
    Beijos…^^

  5. Cláudia Regina disse:

    Adorei Renata! Falou tudinho, e gente que coisa mais linda a Alice com esse óculos e babador… babei aqui tbm =D

  6. Rosane Maria Feier Ricci disse:

    Carol e Alice, ter uma amiga que pensa “Além disso, quando você é realmente amiga de alguém, qualquer coisa que acontece com essa pessoa é como se acontecesse contigo. Se eu pudesse, todos os meus amigos estariam sempre felizes, 24 horas por dia, 7 dias por semana, todos os seus sonhos se tornariam realidade, e eles acabariam passando a vida enrolados em plástico bolha. Mas nada disso é possível” já é um presente, que linda mensagem…. e o mais importante…. tudo inspirado nesta familia linda que recebeu a Alice com todo amor… “beijos…

  7. Deisy Aguiar disse:

    Adorei esse post, lembro que enviei um e-mail aos melhores amigos contando-lhes que nosso bebe tem SD e tabem dizendo que estavamos bem e felizes com o nosso pequeno e recebi muitos e-mails lindos que guardo ate hoje, mas nunca me ocorreu perguntar a meus amigos como eles se sentiram quando lhes dei a noticia. Parabens pelo lindo texto Renata.

  8. Fernanda Rabelo disse:

    …nossa Carol realmente vc tem amigos! A M I G O…é uma escolha que fazemos de estar com outra pessoa para o que der e vier… Parabens para vc e para a Renata de se manterem firmes num só próposito: o bem de vcs, juntas. Eu sinto o mesmo.. como se estivesse meus amigos intimos me apoiando.. valeu demais pelo post.

  9. Lilia Fernandes disse:

    Carol… so descobri que o Marcelo Henrique tinha SD depois de uma semana, na maternidade em Florianopolis me falaram coisas horriveis… e eu so pedia a DEus que ele pudesse andar, brincar, falar e ser feliz..nada mais.. Ele era muito hipotonico, faz 1 ano daqui a uma semana dia 06-05, e o atraso motor tambem não e muito, devido a hipotoia que ele tinha e tem.. sentou sem apoio aos 10 meses, e agora a beira de 1 ano começa a dar seus empurroes para engatinhar.. desde o começo…penso..será no tempo dele..e não ligo para o que os outros falam… eu estimulo, mais sempre respeito seu tempo e limites, por mais que a fisio e To na Apae dizem que ..teemmm que engatinhar… minha irma e padrao e não engatinhou… Parabens…pela Alice e pelo Antonio..não somos nada sem eles,,,, Beijooo

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