O poder das palavras.

Filha de uma conhecida professora de Literatura, cresci entre livros e admirando as palavras. Aliás, desde cedo aprendi que as palavras têm poder, embora nem sempre sejam empregadas para o bem. É através de expressões que perpetuamos o preconceito, ainda que velado ou enraizado. Muitas vezes utilizei palavras como denegrir e judiar sem pensar na origem delas, mas bastou uma breve reflexão (ou uma pessoa chamando minha atenção) para eu apagá-las do meu vocabulário de vez.

Apesar de me considerar uma pessoa atenta a estas questões, antes da Alice nascer eu usava a palavra retardado o tempo todo: falava que eu estava retardada se tinha bebido demais, tinha sido retardada porque tinha esquecido a chave de casa, se um amigo estava fazendo alguma besteira, eu logo falava: “ai que retardado”.

E então bebê Pig entrou na minha vida. E FINALMENTE caiu a minha ficha de que não era legal usar esta palavra, principalmente desta forma pejorativa. Aliás, a palavra foi tão vulgarizada e removida de seu sentido original, que hoje em dia não se recomenda utilizá-la nem para falar de pessoas com atraso intelectual.

Não é ser chata, não é ser politicamente correta, nem mesmo dourar a pílula. Eu tenho plena noção de que a Alice tem atraso motor e cognitivo, e utilizo a palavra deficiência com tranquilidade (embora sempre atenta ao modelo “pessoa-antes”: pessoa com deficiência, e não o deficiente). Utilizar um vocabulário correto e respeitoso é demonstrar carinho. É praticar o bem e a inclusão.

A campanha do site “Spread the Word to end the Word” incentiva as pessoas a pararem de usar a palavra-R como um ponto de partida para criar atitudes e comunidades mais inclusivas para todos. Linguagem afeta atitude e atitudes afetam ações. Eles listam outros motivos para abolir a palavra-R de uma vez por todas:

A palavra-R é exclusiva.

A palavra-R ignora a individualidade.

A palavra-R equipara deficiência intelectual com ser “burro” ou “estúpido”.

A palavra-R machuca.

A palavra-R é ofensiva.

A palavra-R está incorreta.

A palavra-R é pejorativa.

A palavra-R fomenta a solidão.

A palavra-R é discurso do ódio.

rword

E já que estamos apagando uma palavra-R, podemos começar a usar outra.
Que tal Respeito? 🙂

edit: Esse video é muito legal, e fala um pouco mais sobre este assunto:

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28 comentários sobre “O poder das palavras.

  1. Renée Melo disse:

    Muito legal Carolzinha! não dá pra esquecer o poder que as palavras tem! tu e a tua mãe tem o dom e a força da palavra e esse blog aqui é uma prova disso pro bem. baci

  2. André de Moura Soares disse:

    O meu blog tem um foco diferente, é mais voltado a informar acerca de direitos, em especial das pessoas com síndrome de Down. Mesmo assim gostaria de postar o seu texto, obviamente dando o devido crédito e colocando o link do seu Blog. Posso?

  3. Emanoele disse:

    Oi Carol,

    Comecei a acompanhar o Nossa vida com Alice pelo facebook e resolvi dar uma conferida no blog. Simplesmente AMEI, li todas as publicações desde o começo. Tive um tio com Sindrome de Down, foi um anjo em nossas vidas e, até hoje, ainda sinto falta dele. Ele fez um tratamento com Dr. Zan Mustacchi no inicio de sua vida, só conheço as histórias que minha avó conta.
    Achei a Alice uma bebe linda, fantastica e é lindo ver seu amor e dedicação pela vida dela, aprendendo aos poucos como cuidar desse anjo que Deus colocou na vida de voces. Parabens pelo blog e parabens pelo exemplo de vida.

  4. Anna disse:

    Carol, mais uma vez, um texto excelente.
    E neste mundo povoado de palavras, desejo que a Alice encontre sempre as mais belas.

  5. Fernanda Rabelo disse:

    Como posso dizer… tambem ja usei essa palavra e tambem ja comentei muito sobre as “pessoas com deficiencia” que encontrei na vida… mas confesso, que há algum tempo já havia mudado o modo de pensar sobre isso, e hoje depois da chegada da minha pequena Alice que tambem é SD, não fico feliz quando alguém a “rotula” como deficiente. Olhe para minha e para sua Alice, o que vc vê de deficiente nelas? Acho que tudo na vida depende do quanto o seu coraçao esta aberto e “limpo” para “rotular” aquela ou outra pessoa. Valeu mesmo Carol seu blog é muito inspirador para mim.

  6. Walter disse:

    Sou Pae de uma meninha con SD, porem me acho com autoridade de falar a bestera que eu vou compartir com vcs. Os medos assim como os fantasmas tem que se enfrentar pois desse jeito o poder deles va embora. Se evitamos e nao encaramos so estaremos olhando em outra direccao o simplesmente escondendo a cabeca no chao como o avestrus. Esse caro extra cromosoma tem as suas consequencias e a principal é o retardo no aprendizagem e na movilidade da Charlotte, esso e um fato cientifico. Eu encaro dia apos dia esse fato e estou sempre procurando estrategias pra lutar contra ele e tentar que a distancia que separa a minha filha das outras criancas seja cada dia menor. Mais eu sei, o principio de todo problema e aceitacao, que ela va ter esse retardo, esse atrasso em aprender e em dominar o seu corpo. Sabendo esso eu me sento mais honesto e mais leve. O preconceito va existir sempre, quero preparar a minha filha pra enfrenta-lo e nunca jamas se sentir ferida. Ela, contando sempre com o meu amor, va a superar cada barreira e cada pre-conceito com a forca do carinho e do amor de Deus. Como toda palavra, “retardado” poder ter muitos tons e acentos dependendo do que vc quer expresar. A palavra “retardo” sera usada respeito a minha filha pra falar do jeito e do grande espiritu com que ela venceu o seu retardo, sobre o seu jeito devagar (mais alegre e feliz) dela de navegar nessos mares da vida. Eu nao temo as palavras, tenho sido chamado de muita coisa feo eu mesmo na minha vida, por esso eu acredito mais que nada nas accoes. Vamos rir dessa palavra feia e vamos despoxa-la do seu poder falando-a e deixando -a sem forcas. Valeu comunidade de paes e maes de chinesinhas e esquimais, somos abencoados!!!!!

  7. Cintia Amâncio disse:

    Muito legal esse texto. Também estou tendo bem mais cuidado com as palavras que uso pra falar do meu filho lindo, a cada dia aprendo mais e me sinto uma pessoa melhor.

  8. Vovós Cá e Sá disse:

    Gostei… Esses esclarecimentos são muito importantes, pois embora saibamos que nao e legal, utilizamos sem pensar. Beijos

  9. Juliany Silva disse:

    Mais uma vez, um texto perfeito. Acho que esse só perde pro “Obrigada, Alice”.
    O pior é que essas atitudes estão tão enraizadas que mesmo quem já refletiu sobre elas ainda cai no erro. Ontem mesmo passou uma mulher de muleta do nosso lado e o Bernardo, meu filho com SD, estranhou. Eu de forma espontânea disse: “é que a moça tem um defeitinho na perna”. Pô, Juliany, DEFEITO? Logo tentei consertar: “não, filho, quer dizer, ela tem um dodói na perna, entendeu?”. Sim, ele deve ter entendido o que eu disse: doença é defeito. E a partir de agora haja atitudes positivas pra consertar as negativas!

    • carolrivello disse:

      Ah, Ju, normal né? Não somos perfeitos. O que importa é ter humildade para aprender e querer evoluir sempre. Que bom que você curtiu o texto 🙂 Beijão nos dois lindos!

  10. Teresinha C de Sampaio disse:

    Belo texto Carol!
    Sou avó da Betina com 9 meses e sigo seu blog com o maior carinho.
    qdo vier ao Rio passear terei o maior prazer em conhecer esta família e apresentar Betina Para Alice.
    bjo

  11. Rafaella disse:

    Carol, o blog é muito legal! Você parece uma mãe exemplar, parabéns!
    Sabe o que seria interessante em outro momento (digo outro momento porque o aniversário de 1 ano tá chegando e deve ser O assunto do mês! 🙂 ? Falar sobre uma das metas do Plano Nacional de Educação, que prejudicaria as APAEs. Na verdade temos lido e ouvido por aí notícias vagas, seria bacana saber a opinião de quem utiliza os serviços de uma APAE. Uma de minhas alunas é fisioterapeuta na APAE aqui de Joaçaba e já conheci o trabalho deles, que é uma coisa surreal de tão linda. Bem, foi só sugestão! 🙂
    Parabéns mais uma vez pelo carinho com a sua Alice e pelo blog.

  12. Mário Cezar da Silveira disse:

    Carol, como chamo minha filha de Carol, me sinto íntimo de você. Sempre digo nas minhas palestras que conviver com pessoas com deficiência é ter a oportunidade de olharmos para nossas deficiências, para então decidir que queremos superá-las.
    Tendemos a supervalorizar nossas qualidades e, casuisticamente, esconder nossas deficiências, Nossa evolução acontece não pelas nossas qualidades, mas pela superação de nossas deficiências.
    Parabéns pelos seus textos e desejo que continue a nos brindar com as descobertas que a Alice proporciona a vocês.

    • carolrivello disse:

      Oi Mário! Que linda a sua história com a Carol. (li no seu outro comentário). Fiquei emocionada com a tua sensibilidade em relatar a relação de vocês e como a vida de vocês mudou com a chegada dela. Metida que sou, logo fui procurar no seu facebook uma foto dela. E fiquei impressionada! Que mulher bonita e feliz! Realmente um exemplo de vida. Um abração e obrigada pela visita e pelo carinho.

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