A filha eterna.

– Mãe, acho que temos uma “filha eterna”*.

Não entendi nada na hora, mas entendi que algo estava, por assim dizer, errado. Balbuciei, tentando ganhar tempo:

– É, filha?

Na hora entendi o eterna como morte, minha neta não teria “vingado”, como se dizia antigamente. Gelei. Levaram alguns segundos para as sinapses se formarem e eu entender que o eterna era uma alusão ao livro do Cristóvão Tezza, O Filho Eterno, que conta a saga do pai escritor e seu filho com síndrome de Down. Livro que eu e a Carol lemos anos atrás, e nos marcou muito.

Se eu quisesse saber de fato o que significava a famosa “fração de segundo”, estava sabendo naquele momento, naquele instante. Foi o tempo que tive para absorver o impacto da informação. Na minha frente eu só via a minha filha e sua filha, minha neta já tão amada.

Pela primeira vez na vida, esqueci-me de mim, deixei meus sentimentos de lado, o protagonismo, e fiquei inteira para minha filha Carol. O que se passou dali para diante, todos de certa forma acompanham, seja pelo blog Nossa vida com Alice, seja pelos meus depoimentos.

Um mundo novo surgiu – tudo ao mesmo tempo agora. Uma coisa, no entanto, ficou clara pra mim: qualquer preocupação, qualquer medo, qualquer sentimento de dor, tudo se dissipava quando olhávamos para Alice. O plural se faz necessário nesse verbo, pois os olhares eram muitos, olhares de amor, de carinho, de aceitação plena.

Confesso que tudo me foi mais fácil, pela força advinda de Carol e Thomas, a forma como encararam o desafio de ter uma filha com necessidades especiais. O empenho, o afeto, a rede de amor desse lindo casal lindo (é necessária a redundância) blinda qualquer sentimento negativo.

Neste primeiro ano da Alice, aprendi muito. Aprendi, sobretudo, respeitar as diferenças, a lutar por um mundo mais justo, mais inclusivo. Não sou dada a negações, sei que a nossa Alice precisará de estímulos e de toda uma rede de ações que a eduquem para uma autonomia.

Quero que ela saiba que a vovó dela estará sempre por perto e se esforçando muito para ser uma pessoa boa, uma pessoa melhor. É muito, muito, claro para mim que a síndrome de Down não define a Alice.

Com muita serenidade digo que a amo muito, por ela ser quem é: de nariz arrebitado, pequenina, carinhosa, amiguinha da vovó, com boquinha de morango, com sorriso maroto, com síndrome de Down, com olhar iluminado. Amo você, ALICE! O mundo é infinitamente mais bonito depois de sua chegada!

vovopig2

* Nota da Carol: Graças à querida Juliany, ainda na maternidade abandonei a ideia de que a Alice seria uma filha eterna, eternamente dependente de mim. Eterna mesmo é minha gratidão a ela por ter me aberto os olhos.

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19 comentários sobre “A filha eterna.

  1. Fernanda Rabelo disse:

    Nossaaaaa…. estou muito emocionada com este depoimento de “avó”… Sabe Carol, quando digo aqui que me identifico muito com sua história não é por acaso. Na minha família muitas coisas já mudaram com a chegada da Alice, mas uma coisa que mudou muito mesmo, foi a minha mãe comigo. A avó da Alice recebeu a notícia com tanto entusiasmo que colocou de lado todas as nossas diferenças, que sempre foram motivo de nos deixar distante uma da outra. Hoje estamos muito mais unidas, pelo bem estar da Alice.

  2. aline disse:

    Perfeito. Amo tudo isso. Vivi tudo isso. Vivo tudo isso. Obrigada pelo crescimento ao ler estas palavras. Parabens sorte paz amor e muita Luz!
    Bjs meu e de Anna Luz.

  3. Monalysa disse:

    Querida Soninha….tenho claro o dia em que a Joana chegou em casa contando do nascimento da Alice. Ela conseguiu transmitir pra mim o que acabei de ler agora. Em nenhum momento senti tristeza ou raiva nos olhos da Joana, mas sim, uma aluna apaixonada pela novidade do nascimento da Alice. Parabéns pela bela família e mta saúde pra todos…..bjos Soninha.

  4. Carol Silva disse:

    A filha eterna é ótima… que bom que a Dra. Juliany deixou claro pra vocês que isso era um mito. Já nós tivemos uma experiência bem diferente quanto à essa ideia de filho eterno. Após a primeira cirurigia cardíaca da Laís uma téc. de enfermagem nos disse no hospital, enquanto eu amamentava (na cabeça dela, elogiando): “que linda ela, um amor, e o melhor é que vocês vão ter um bebê pra sempre!”. Não me dignei nem a responder, imaginei que não ia adiantar argumentar contra um comentário desses vindo de alguém que deveria conhecer melhor, nem que fosse pela vivência de hospital. Só tenho a dizer que não vi essa moça por lá quando a Laís operou de novo agora no começo do mês 🙂
    A Alice tá cada vez mais fofa, a propósito!
    Bjão pra vcs!

    • Eliana disse:

      Também passei por esse comentário, bem quando minha filha nasceu, de várias pessoas. Tudo o que eu queria era uma filha independente, assim como eu. E na época, por falta de conhecimento, fiquei triste e pensando muito nessas palavras. Nós mães, faremos de tudo para que sejam o mais independentes possíveis. Assim como no comentário dessa avó afeituosa, quando olhamos para eles, toda preocupação se dissipa. Beijo na Alice.

  5. Aline disse:

    Essas palavras me fazem crecer a cada dia como mãe da Belli e do bebê chambinho ( com sd) , bjs e toda felicidade pra vcs

  6. Anna disse:

    Carol e vó Soninha, para definir a Alice e o amor que ela provoca, tomamos um banho com os adjetivos mais doces e depois vestimos as interjeições.

    * Alias, Carol, falando em palavras e em classes gramaticais, avisa-me quando voltar ao batente?

    • Gabriela disse:

      Nem sei o que dizer, fiquei sem palavras com esta linda mensagem e com a maneira que todos encaram os desafios que a vida nos traz. Um exemplo para todos nós!

  7. Claudia Bernardes roberge disse:

    Professora Soninha sempre muito sábia! Fiquei emocionada. Parabéns pela família maravilhosa que constituem!

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