síndrome de detetive

Uma semana depois que a Alice nasceu, eu recebi um email de uma grande amiga. Daquelas amigas que são tão próximas que já viraram família. O email é tão lindo e especial que acho injusto guardá-lo só para mim. Nele ela fala algo que eu nunca mais esqueci, para cuidarmos com a “síndrome de Detetive”.

Mas afinal o que seria síndrome de Detetive? Ela explica: Quando uma criança nasce com síndrome de Down, é comum que a família inteira desenvolva um outro tipo de síndrome, que é a síndrome de detetive. As pessoas começam a reparar nas mínimas coisas que esta criança faz de incomum, cada pequena coisa que fuja ao comum e dizer, “ah, isso é porque ela tem síndrome de Down” ou, “viu que típico?”. Os professores, ou melhor – toda a sociedade – fazem o mesmo e aí nasce a falácia “típico do Down”. Você não imagina o quanto machuca meu coração e minha inteligência este tipo de atitude.

“A verdade é que quando queremos encontrar defeito nos outros, sempre encontramos, pois não existem pessoas perfeitas.”

Ela continua: Carol, eu queria tentar reconstruir uma nova crença dentro de você, mesmo que esta seja só uma sementinha. Eu quero que você acredite no aprendizado, eu quero que você acredite no desenvolvimento (desenvolvimento até de uma nova sociedade), eu quero que você acredite em possibilidades e em caminhos novos, e abandone as limitações.

“A limitação é um muro alto que nós construímos sozinhos, e é nossa obrigação derrubá-lo.”

Muitos dos pensadores que guiam a educação hoje, publicaram suas teorias em torno de 100 anos atrás, e por isso nossa educação ainda é um pouco retrógrada, Depois disso tanto já foi escrito e publicado… Carol, pensa comigo, cem anos atrás as mulheres não podiam votar porque se acreditava que elas não tinham desenvolvimento intelectual para isso, acreditava-se que negros e brancos aprendiam de forma diferente, uma mãe com depressão pós-parto ia para o hospício, assim como pessoas com depressão, com bipolaridade, problemas com drogas. O quanto já evoluímos desde disso, e o quanto ainda podemos e vamos crescer…

O mesmo aconteceu durante anos com as crianças com síndrome de Down: em vez de focarmos nas possibilidades, acabamos, enquanto sociedade, focando nas limitações. Mas todos nós temos limitações, e com a ajuda da síndrome de Detetive elas de fato apareceram e viraram estigmas. Carol, não acredita nisso, abandona os teus preconceitos e todas as previsões limitadoras.

“A grande verdade é que ninguém sabe quais são as reais possibilidades para uma criança com síndrome de Down, pois cada pessoa é uma, diferente de todas as outras.”

A Alice é uma menina especial, linda e cheia de possibilidades. Que vai crescer e se desenvolver, que vai encher as nossas vidas de alegria, ela vai ter uma vida igual a de todas as outras crianças, vai fazer o que todas fazem. Vai crescer, ser independente, ter a sua família, seus amigos, seu emprego e sua vida como todos nós, e ainda assim vai ser única na sua maneira de pensar e agir.

Viram porque eu não podia ficar com este email guardado só para mim? Lindo o texto que minha amiga escreveu, né? Ele me marcou de tal forma, que até hoje eu procuro encarar toda peculiaridade da Alice como inerente a sua pessoa em primeiro lugar e reforço o que sempre digo: “ela é muito mais que a soma de seus cromossomos”.

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