Sobre ter filhos e ter coragem.

Eu sempre me imaginei mãe de 3 filhos. Depois que a Alice nasceu, foi caindo a minha ficha de que criar um filho não é uma tarefa simples, demanda muita energia/tempo/dimdim da gente, e acabei reajustando minhas expectativas. Mas eu sempre simpatizei com a ideia de ter mais de um filho, curto muito a experiência de vida e os ensinamentos que a convivência entre irmãos proporciona.

Optar por mais de um filho não é uma decisão fácil. Para mim, por exemplo, ter um segundo filho significaria mais tempo afastada (ainda que parcialmente) do meu trabalho que eu adoro, menos noites de sono, menos tempo livre, o orçamento mais apertado… fora todas as mudanças no corpo que acontecem durante a gestação. Resumindo: é preciso ter coragem para tomar essa decisão.

E se normalmente essa opção já é feita com cautela, para nós, mães de primogênitos com uma condição genética, ela costuma vir acompanhada de uma reflexão maior ainda. Novas perguntas surgem: será que o próximo também terá esta ou outra deficiência? Darei conta de mais de um filho com necessidades específicas e adicionais? Este segundo filho fará com que eu tenha menos tempo para me dedicar ao primeiro?

No final deste ano a Alice ganhará um irmãozinho. :) Depois de refletir um pouco, percebi que a Alice veio para me mostrar que eu não posso e nem consigo controlar tudo. Por isso, eu e meu marido decidimos encomendá-lo (hehe) naturalmente e não realizar exames invasivos. Só saberemos com certeza se ele terá ou não síndrome de Down no seu nascimento.

Talvez parte da graça e do desafio de ter filhos seja isso mesmo, o mistério do que virá, o processo de abrir o coração para receber o que nos será enviado. Se ter um primogênito com uma alteração genética nos fez ter mais cautela, que nos faça também ter mais coragem e confiança para aceitar novos desafios.

Mas isso não signifique que ache que exista maneira certa ou errada de agir nessas situações ou eu julgue pessoas que decidem optar por outros caminhos. Por ter passado por essa experiência de vida, eu realmente tenho empatia pelas famílias que optam por não ter mais filhos, ou que recorrem à recursos atuais de fertilização assistida. Para mim, esta é uma decisão tão pessoal quanto ter filhos ou não.

Quanto ao irmãozinho da Alice, sou como toda grávida e torço para que seja um bebê saudável. Mas daí eu lembro que torcer por uma criança perfeita é algo injusto e impossível. Então eu torço para aquilo que de fato é mais tangível: que eu tenha sabedoria para receber este novo presente de cabeça, coração e braços abertos.

(Texto publicado originalmente no blog Janela com Vista)

Anúncios

10 comentários sobre “Sobre ter filhos e ter coragem.

  1. André disse:

    Que texto denso, denso de amor e desprendimento. Tenho três filhos e sei como é difícil cuidar de 03, mas também sei como é gratificante. O seu amor e dedicação a Alice são tão evidentes, tão evidentes, que acho (muita pretensão achar algo rsrs) que você tinha que ter uns 10 e ainda ia sobrar amor. Parabéns.

  2. Teresinha disse:

    Querida Carol Maravilhoso texto! Parabéns! Seu bebê chegará com muito amor para vcs! Bjo Teresinha Vovó da Betina

    Enviada do meu iPhone

    >

  3. Carol disse:

    Carol
    Vc poderia me disponibilizar seu email? Estou vivendo este momento e cheia de dúvidas e inseguranças.
    Obrigada
    Bjo
    Carol

  4. Ana disse:

    Que lindo texto! Me identifiquei, pois tenho pensado muito nisso, tenho um filho de 10 anos e um bebezinho fofo com SD. Queira mais um filho mas…penso as mesmas coisas que vc, são muitas variáveis, não é uma decisão simples, nem fácil. Parabéns pela coragem e força!

  5. Barbara Gois disse:

    Parabéns zilhões de vezes!! Num mundo hoje tão distraído com a futilidade e o egoísmo, é um bálsamo p olhos ler um texto como esse!! Que Deus continue te abençoando, te dando graça e sabedoria! Com certeza sua pequena veio não só p ser sua, mas tb para renovar o verdadeiro sentido da maternidade na vida de muita gente! Mais que especiais vcs são! ❤ ❤ ❤

  6. Andrea disse:

    “… que eu tenha sabedoria para receber este novo presente de cabeça, coração e braços abertos.”
    Obrigada, Carol.
    Beijos.

  7. Paula disse:

    Prezada Carol. Boa tarde! Lindo texto. Também sou mae de um primogênito com síndrome genética e não concordo com vc de que torcer para que o filho seja saudável seja injusto. Todas nós, mães, desejamos o melhor para nossos filhos, e porque não desejaríamos que nosso outro filho fosse uma criança típica? A vida traz sim surpresas e também prognósticos, e alguns deles, são bastante difíceis. Então esse mistério da vida, em caso de deficiências graves, já não é tão misterioso assim…Bem, não estou aqui para encher sua cabeça… é apenas uma colocação de uma mãe que não vê tudo de forma tão simples e que analisa níveis variados de comprometimento em portadores de NE. Um abraço.

    • carolrivello disse:

      A gente sempre torce para o melhor dos nossos filhos, né? 🙂 Sejam eles neurotípicos ou não. Só esclarecendo que a injustiça estaria em torcer por um filho perfeito, e não um filho saudável. Acho que entendo isso como injusto, pois enxergo que não existem pessoas perfeitas, nem filhos, nem mães… Muito amor para vocês! Um abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s