Eles

Na imagem: duas mãos seguram dois balões de fala feitos de papel. Um é azul escuro, outro azul claro.

Na imagem: duas mãos seguram dois balões de fala feitos de papel. Um é azul escuro, outro azul claro.

Assim que seu filho nasce com síndrome de Down você passa por um momento sensível e algumas palavras usadas por familiares, médicos e amigos acabam machucando — mesmo que não seja a intenção de quem as falou. É o ultrassonografista que chama seu filho de doente, a terapeuta que usa a palavra-r, o conhecido que pergunta qual o problema do seu bebê (e se ela é “assim” porque bebeu água do parto — true story).

Com o tempo você vai conquistando um pouco mais de jogo de cintura, e aprende a lidar melhor com estas situações. Eu, por exemplo, em alguns momentos simplesmente sorrio e ignoro comentários maldosos. Em outros momentos (quando estou inspirada, e a situação permite), aproveito a oportunidade para esclarecer meu interlocutor e oferecer uma nova perspectiva sobre a síndrome.

Eu normalmente tenho paciência quando ouço alguma frase preconceituosa sobre síndrome de Down. No entanto, há um vicio de linguagem — que por sua vez expõe um vício de pensamento — que ultimamente tem me irritado: “Eles”. Me irrita pela frequência com que é usado. Me irrita pela sua aparente inocuidade. Me irrita por ser um simples pronome e ao mesmo tempo representar tanto.

Explico a origem da irritação. O habitat natural desta palavra é em frases como estas:

Eles são tão carinhosos, né?
Adoro todos eles! Eles têm todos a mesma carinha!
Eles são tão agressivos. Um vizinho sempre batia na prima da minha amiga.
Eles estão evoluindo tanto. Um menino da minha cidade até lê e escreve.

Eles quem, cara pálida? As pessoas com síndrome de Down não são todas iguais. Colocar todas no mesmo pacote é preconceito disfarçado de compaixão. É desconhecimento camuflado de informação. Ao uniformizar demasiadamente um grupo e declarar que todos se parecem e agem da mesma maneira, você está tirando algo precioso destas pessoas: sua individualidade.

Eu acho generalizações chatas, previsíveis e até mesmo perigosas. Nem toda menina gosta de rosa, nem todo menino curte futebol. O mesmo vale para pessoas com SD. Achar que todas as pessoas com a trissomia são agressivas, pois você conheceu um vizinho que assim o era, é tão falacioso quanto presumir que todas as meninas gostam de lilás, pois sua filha gosta.

Este não é um problema de gramática. Estamos falando de empatia. Estamos falando de pessoas que têm seu direito básico de individualidade arrancado desde seu nascimento, quando não antes. Enquanto as pessoas com SD continuarem rebaixados ao último pronome pessoal, perderemos oportunidades de conhecer a pessoa única por trás da síndrome.

(Texto publicado originalmente no blog Janela com Vista, criado pelo Instituto Alana)

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2 comentários sobre “Eles

  1. Aline disse:

    Sensacional, Carol! É exatamente o que acho e sinto. Como é difícil vencer essas questões, que, aparentemente, aos olhos dos outros parecem ser tão inofensivas. Parabéns pela sensibilidade e precisão de sua análise. Bjs.

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