Nené!

Na imagem: Montagem de 4 fotos da tia "nené" com a Alice.

Na imagem: Montagem de 4 fotos da tia “nené” com a Alice.

Basta alguém apertar o interfone ou o telefone tocar, a resposta imediata da Alice é sempre a mesma: “nené?” Explico: Nené é diminutivo de Néinha, que por sua vez é o apelido da família para minha irmã Stella. (Stella, um nome tão bonito, e a gente vai lá e a chama de Néinha…) E a Alice tem paixão por ela. Desde bebê ela teve pela tia uma empatia e um amor tão gratuito, que parece até encontro de almas. Pedi então para a nené escrever um post para o blog, falando sobre o nascimento da Alice, o que ela sentiu quando recebeu a notícia da sd e sobre a amizade das duas. Dedico o post a todos os tios e tias de crianças com síndrome de Down! 🙂

“Minha tulipinha.

29 de agosto de 2012. Fora esta a data proclamada por mim para o nascimento de minha sobrinha. A família fez um bolão e acertei, mas confesso que nem eu mesma esperava. De fato, eu estava em Blumenau, onde morava, quando recebi um telefonema de minha irmã avisando que faria uma cesariana naquele mesmo dia, pois a Alice poderia entrar em sofrimento fetal.

Saí correndo do trabalho, peguei minha filhota no colégio, compramos uma roupinha de Frida neném para a Alice (olha as ideias!) e zarpamos para Floripa. Lembro-me bem de ter me encontrado com o Gustavo em Itapema e seguirmos juntos, na ânsia de chegar antes de ela nascer. Chegamos pouco depois. À hora exata de seu nascimento tocava Coldplay no carro “She was just a girl, she expected the world…

Cheguei esbaforida à maternidade e eles haviam acabado de mostrar Alice para toda a família por aquele vidro. Eu não vi! Todo mundo comentando sobre que linda ela era e eu havia perdido esse momento! Fiquei arrasada. Esperei algum tempo até que minha irmã e a pequena descessem para o quarto.

Quando finalmente a vi, achei-a muito parecida com o Thomas. Os olhos mais puxados, por uma fração de segundos pensei na síndrome, mas um longííínquo lampejo. Achei-a linda de viver. Dei um beijo na minha irmã, lembro que comentei feliz “Lóu, agora você é mamãe!” e voltei a Blumenau, pois não podia faltar ao trabalho.

No outro dia de manhã, estava falando ao telefone fixo, quando meu celular tocou. Era a minha mãe, precisava falar comigo. Como vi que ela estava insistindo, larguei a outra ligação e fui ver o que era. Ela me disse “Neinha, tens o telefone da tia Dete (pediatra, grande amiga)?” Na hora eu pensei, “deu alguma coisa na Alice”, depois, a voz da minha mãe pausada… cheguei a pensar no pior. Ela me disse “A nossa Alicinha… Stella, há suspeitas, não, não, a Carolina está aqui dizendo que já é confirmado…que a nossa Alicinha… (e eu tremendo do outro lado da linha) tem síndrome de Down”. Eu sentei, respirei fundo, chorei muito, nem lembro mais o que ela falou depois disso e nem o que eu falei para ela. Hoje eu tenho tanta vergonha por ter chorado! Só pensava na minha irmã, pensava no que seria da vida dela. Lembro-me de ter, pateticamente, pensado “Ai…ela nunca mais vai poder viajar”. Quem é que pensa uma coisa dessas? Que tosquice! Como a ignorância nos poda, não é mesmo? O medo do desconhecido estava bem ali na minha frente.

Já era fim de semana e a família se revezava na maternidade para dar apoio não só com os cuidados, mas também com energia boa aos novos papais. Aquela salinha de espera transformara-se em uma grande e acolhedora terapia de grupo. Mais calma, comecei a pesquisar sobre famílias que tinham crianças com a síndrome. Achei o blog “A vida com Logan”, aquela primeira resposta à minha pesquisa me deu uma injeção de ânimo! Mostrei o blog para a amiga Naninha, sua irmã Helô me ligou, disse que eles seriam felizes, me abraçou à distância. A geneticista apareceu no quarto para conversar com os pais, pegou a Alice no colo, disse que sim, ela tinha a síndrome (apesar de o resultado do exame só ter saído depois), e a elogiou muito. Não a tratou com diferenças, alarmismos, sabe? Era uma neném! A conversa dela foi tão assertiva e positiva! Melhor do que isso só a phodástica Dra. Juliany, que apareceu com sua bota de salto diva naquela maternidade, cheia de alto astral, toda bonita, arrumada, profissional, humana! #julianyteamoforever

Chegando em casa, fomos recebidos com grande afeto pelos dindos, que fizeram uma faixa de “Bem-vinda, Alice”. Um delicado sorriso da minha irmã apareceu. As nuvens estavam começando a ir embora.

Nesses primeiros tempos eu só via a Alice aos fins de semana, já que morava em outra cidade. A cada vez que eu vinha, as coisas mostravam-se melhores (Alicinha está conseguindo mamar! Alicinha sorriu! Alicinha foi para a aula!). Era minha sobrinha crescendo em um ambiente repleto de amor e carinho.

Desde que nasceu, sentimos um amor muito louco uma pela outra. Uma de suas primeiras palavras foi Nené (euzinha!). Às vezes as pessoas confundiam com  “n..n..” que ela usava para todo e qualquer objeto. Sempre pensei: “Nené” é uma coisa, “n..n..” é outra! Não vem que não tem! 😉 é um amor gratuito, não sei trocar fralda, colocar para dormir, não sei se cuido direito, mas sei que a amo como uma filha.

A vida da minha irmã não acabou, pelo contrário, recomeçou, e ainda mais bonita. Carol está feliz, trabalha, tem novos projetos, viaja. Tudo no tempo que pode, como toda e qualquer outra mãe. O Thomas também! Feliz profissionalmente e, em casa, curtindo seu cafofo rock n’ roll onde toca guitarra e a Alice toca bateria.

Desde então a nossa casa é só alegria. Voltei a Florianópolis faz um ano, podendo curtir mais a minha sobrinha, que me visita todos os dias pela manhã. Eu adoro porque ela chega, esparrama-se no meu sofá, come suas bolachinhas (esfarela tudo, mas ela PODE), vê Popó (Galinha Pintadinha). Brinca de tirar selfie com o celular, dançamos dança do ventre (ela se amarra naqueles cintos cheios de medalhinhas), acha as minhas caixas, tira tudo de dentro, pega os meus sapatos, penteia os meus cabelos, agarra meu celular e fala “U-ú?”, que é Gugu (meu marido). É super esperta e confiada, sabe que eu sou aquela que faz as vontades mesmo e tira proveito disso!

Quando eu pego meu afilhado no colo (o mano), ela me olha with lasers, juro. Dava para fazer um meme. E essa é mais uma das coisas que eu gosto na Alice, a personalidade! Seu jeitinho único e encantador.

Alicinha, és o sol dessa família! Nunca as tulipas foram tão lindas.
Te amo muito! Sua Nené <3″

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11 comentários sobre “Nené!

  1. Juliana disse:

    Lindo texto!!!!
    Felicidades a essa família linda!!
    (Ps.: adorei o phodastica da dr. Juliany, perfeito adjetivo, ela é demais!!)

  2. Cristiano Santos (cristianoweb) disse:

    Gente Carol, como ela está grande meu Deus!
    É tão louco isso de ter filhos né? Numa hora estamos grávidos, noutra os bebês desaparecem e dão espaço para essas criaturinhas tão encantadoras que nos surpreendem todo momento!

    Ainda lembro de dormir deitar no sofá da sala com o Nicolas e Analice deitados no meu peito e barriga enquanto a Cida dormia uma parcela de sono no nosso quarto entre “uma mamada” e outra. Abro os olhos e vejo um rapaz de “quase 15 anos” (como ele gosta de dizer!) e uma gatinha de 9!

    Sobre o amor dos tios eu conheço bem! Tenho muitos tios e tias com esse mesmo sentimento. Quanto os filhotes, o amor incondicional deles é pela mesma pessoa. O meu irmão Rodney que é padrinho do Nicolas, mas a Analice diz que é afilhada dele de tanto amor!

    Beijos na Alice (quase o nome da minha filha né!!!) e na família toda e na tia Nené claro! ❤

  3. Gabi Medeiros disse:

    Não tem um post nesse blog pra eu não terminar chorando de alegria por existirem pessoas tão cheias de amor como essa família. Parabéns, gente! Vocês merecem a Alicinha que tem, pq a troca de amor por aí, com certeza, é verdadeira!

  4. Andressa disse:

    Pra variar chorei né…. leio seu blog sempre e sempre me emociono… Parabéns por ser esta mãe dedicada e corajosa… (tenho um filho de dois anos e não tenho coragem de ter outro já, kkkk)… Muito amor pra vcs………..

  5. Bruna Cely disse:

    Nossa estou apaixonada pelo blog, e pela Alice. Não tenho filhos e confesso que sempre me assustou pensar em ter um com algum tipo de “deficiência”. O que amei, é a forma como vc descreve, o que sempre considerei um problema, como algo sincero, simples e descomplicado. Faz ser possível e não assustador como sempre tive em mente. Chorei com o post da tia, pq disso eu sei muito bem. Parabéns pela linda família, e que Deus abençoe sempre vocês.

  6. Joelma disse:

    Maravilhoso texto, o amor se concretiza em cada palavra.
    Parabéns a essa família linda.
    Sou louca por esse blog
    Parabéns Nené (rsrs gostei) por ser essa tia…
    Lindo seu depoimento.
    Bjs

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