Mudaram as perguntas

Fiquei esperando as fotos da festinha da Alice para fazer um post especial sobre seu aniversário de dois anos, mas não contava que elas demorariam tanto para chegar! Agora já passou tanto tempo… mas foi um ano tão especial que não posso deixar a data passar em branco no blog. :)

E que ano movimentado que foi! Parece que passou ainda mais rápido que seu primeiro ano. A pequenina venceu diversos etapas em seu desenvolvimento motor, fala cada vez mais palavrinhas e até arrisca algumas frases simples. Foi ano de entrar na escola, de descobrir que ama milho, de passear bastante, de ganhar quarto novo, do seu primeiro corte de cabelo e de ganhar um irmão.

O primeiro ano da Alice foi cheio de dúvidas, e elas foram aos pouco sendo respondidas. Mas isso não significa que seu segundo ano tenha sido mais tranquilo. Como diz aquela famosa frase “assim que eu achei que sabia todas as respostas, mudaram as perguntas“. Continuo na luta para tentar ser uma boa mãe, oferecer boas oportunidades para minha pequena, e batalhar por um mundo mais inclusivo.

E que venha mais um ano cheio de dúvidas, respostas, e mais dúvidas ainda.
E, como prometido, algumas fotos de sua festinha :)

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Sobre ter filhos e ter coragem.

Eu sempre me imaginei mãe de 3 filhos. Depois que a Alice nasceu, foi caindo a minha ficha de que criar um filho não é uma tarefa simples, demanda muita energia/tempo/dimdim da gente, e acabei reajustando minhas expectativas. Mas eu sempre simpatizei com a ideia de ter mais de um filho, curto muito a experiência de vida e os ensinamentos que a convivência entre irmãos proporciona.

Optar por mais de um filho não é uma decisão fácil. Para mim, por exemplo, ter um segundo filho significaria mais tempo afastada (ainda que parcialmente) do meu trabalho que eu adoro, menos noites de sono, menos tempo livre, o orçamento mais apertado… fora todas as mudanças no corpo que acontecem durante a gestação. Resumindo: é preciso ter coragem para tomar essa decisão.

E se normalmente essa opção já é feita com cautela, para nós, mães de primogênitos com uma condição genética, ela costuma vir acompanhada de uma reflexão maior ainda. Novas perguntas surgem: será que o próximo também terá esta ou outra deficiência? Darei conta de mais de um filho com necessidades específicas e adicionais? Este segundo filho fará com que eu tenha menos tempo para me dedicar ao primeiro?

No final deste ano a Alice ganhará um irmãozinho. :) Depois de refletir um pouco, percebi que a Alice veio para me mostrar que eu não posso e nem consigo controlar tudo. Por isso, eu e meu marido decidimos encomendá-lo (hehe) naturalmente e não realizar exames invasivos. Só saberemos com certeza se ele terá ou não síndrome de Down no seu nascimento.

Talvez parte da graça e do desafio de ter filhos seja isso mesmo, o mistério do que virá, o processo de abrir o coração para receber o que nos será enviado. Se ter um primogênito com uma alteração genética nos fez ter mais cautela, que nos faça também ter mais coragem e confiança para aceitar novos desafios.

Mas isso não signifique que ache que exista maneira certa ou errada de agir nessas situações ou eu julgue pessoas que decidem optar por outros caminhos. Por ter passado por essa experiência de vida, eu realmente tenho empatia pelas famílias que optam por não ter mais filhos, ou que recorrem à recursos atuais de fertilização assistida. Para mim, esta é uma decisão tão pessoal quanto ter filhos ou não.

Quanto ao irmãozinho da Alice, sou como toda grávida e torço para que seja um bebê saudável. Mas daí eu lembro que torcer por uma criança perfeita é algo injusto e impossível. Então eu torço para aquilo que de fato é mais tangível: que eu tenha sabedoria para receber este novo presente de cabeça, coração e braços abertos.

(Texto publicado originalmente no blog Janela com Vista)

Nossa vida com informação » Biologia da pessoa com SD

Para quem não acompanhou a estreia desta série, relembro que agora no blog teremos um espaço para pesquisas e novidades sobre a síndrome de Down! Já traduzi e publiquei aqui dois textos sobre a tireóide e a SD, e agora iniciarei uma série falando sobre bioquímica e a síndrome de Down.

Neste primeiro texto, a autora Ginger Houston-Ludlam discute as várias partes da célula, com atenção especial para as partes que parecem ser mais afetadas pelo cromossomo extra em questão. Ela dá detalhes suficientes sobre as questões básicas na síndrome de Down, descrevendo as coisas em um nível de detalhamento preciso e descritivo, porém simples o suficiente para ser compreendido. Por esta razão, algumas coisas podem estar um tanto simplificadas e muitos detalhes foram omitidos.

O texto já tem quase 15 anos, e mesmo assim sinto que este tipo de informação ainda não é acessível e difundida aqui no Brasil. Muitos pais, médicos, familiares e terapeutas não conhecem a fundo estas implicações celulares, causadas pela trissomia do cromossomo 21. No artigo, a autora fala diversas vezes sobre TNI (Targeted Nutrition Intervention), que – resumidamente – seria uma terapia que procura minimizar efeitos negativos de uma síndrome, doença, condição, etc, através de uma nutrição adequada. Caso você se interesse sobre o assunto, pesquise, vá em médicos, se informe, busque opinião de profissionais.

Mas chega de enrolation! Segue abaixo o texto traduzido:

1. Biologia celular básica para pais de uma criança com síndrome de Down
Faça o download aqui do artigo traduzido.
Para quem domina inglês, segue o link para o artigo original:
http://einstein-syndrome.com/biochemistry_101/cell_biology/

Vale lembrar que todos os artigos indicados e traduzidos pelo blog NVCA não devem ser encarados como conselhos médicos ou diagnósticos finais. Consulte sempre o seu médico. Ele é o profissional adequado para auxiliá-lo no melhor diagnóstico e tratamento.

Estimular é um barato: livro personalizado!

Desenvolvimento da fala
Pessoas com síndrome de Down apresentam dificuldade no desenvolvimento da fala, por uma série de motivos. Com a nossa pequena Alice não é diferente: por mais que o seu atraso não seja tão expressivo, já podemos observar que ela precisa de apoio extra e incentivo dirigido neste campo. Pensando nela e em pessoas com dificuldade na fala, minha dica de estimulação desta vez é a criação de um livro personalizado, reciclando um livro antigo que sua criança não use mais!

Temas próximos e de interesse
Mas e como escolher um bom tema? Bom, não sou especialista em estimulação infantil, mas me parece que uma boa maneira de envolver a criança em uma atividade seja trazer aquilo para a realidade dela, apostando no que ela gosta e conhece. Um exemplo: para minha Alice é muito mais fácil compreender o conceito “P de popó” do que “P de palhaço”. Por mais infantil e lúdico que seja o tema circo, ainda não faz parte de seu repertório, sendo assim menos interessante que a galinha azul.

Na image: livro da alice com páginas coloridas e uma foto sua na capa.

Na imagem: livro da alice com páginas coloridas e uma foto sua na capa.

Livrinho da alice
Para a minha pequena decidi bolar um livro com as palavras que ela mais fala, para incentivar que ela se solte mais ainda. No caso da Alice, as palavras mais faladas são os nomes e apelidos de pessoas próximas à ela. Para deixar o livro bem atrativo visualmente, usei fotos simples contrastando com fundos coloridos. Fiz isso no photoshop, mas quem não for muito bom no computador, pode fazer isso com fotos, tesoura e papel colorido!

Detalhe da página com a foto dos padrinhos.

Detalhe da página com a foto dos padrinhos.

Pareamento e introdução às palavras
Alem disso, noto que ela já demonstra interesse em parear, então procurei organizar as páginas sempre em “pares”: papai + mamãe, vovô + vovó, dindo + dinda, etc. Para as palavras usei uma fonte em caixa baixa, simples, arredondada e em vermelho. Sinceramente não sei qual a melhor maneira de apresentar graficamente (no sentido de qual melhor fonte a usar, qual o tamanho, etc) palavras para as crianças, fui seguindo minha intuição.
Atualização: Algumas pessoas comentaram aqui no blog e no facebook que é mais interessante usar as palavras em caixa alta neste primeiro momento, pois são mais simples e mais fáceis de copiar! :)

Dicas NVCA:
1) Procure usar fotos ou desenhos que sejam simples, de fácil entendimento e com o fundo liso.
2) Para as palavras, prefira fontes simples e com contraste com o papel.

Reciclando um livro antigo
Como crianças com SD também podem apresentar dificuldade na motricidade fina, quis fazer um livro com páginas durinhas, que fossem fáceis de manusear. Assim sendo, como base utilizei um livrinho que ela já não dava muita bola. Colei as imagens com cola bastão e passei papel contact por cima, pra resistirem mais tempo aos dedinhos melados e aos dentinhos afiados. Quem quiser algo mais profissional, pode encomendar um livrinho nesses sites que revelam fotos! E para quem não tiver problema com motricidade fina, pode imprimir direto em uma folhinha mais dura, e depois encadernar, grampear, costurar…

Na imagem: mãozinha da Alice pegando o livro.

Na imagem: mãozinha da Alice pegando o livro.

Sucesso de publico e critica
A Alice a-mou o livro! Não imaginei que fosse gostar tanto. Ficou com o olhinho brilhando ao reconhecer tanta gente que ela gostava. Ela ainda não acerta todos os nomes/palavras do livrinho, mas já fala a maior parte. Assim que sobrar um tempinho (tá difícil) quero colocar um video dela folheando o livro e falando os nomes. Enquanto isso fiquem com fotos dela e do livrinho:

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Quebrando copos

Na imagem: pratos e copos quebrados. Crédito: https://www.flickr.com/photos/joshhikes/

Na imagem: pratos e copos quebrados. Crédito: https://www.flickr.com/photos/joshhikes/

Outro dia estava conversando com uma grande amiga que procura sempre dar o seu melhor como mãe (assim como eu) mas que frequentemente enfia os pés pelas mãos (assim como eu). Estávamos rindo das nossas desventuras, erros e acertos, quando chegamos a conclusão: só quebra copos quem lava a louça. Ou seja: só faz besteira quem está lá, diariamente, tentando acertar e dando a cara a tapa.

Ela também comentou que uma vez, ao testar luvas novas para lidar com sua interminável montanha de louça suja, acabou lascando quase todos os pratos (mas que depois que se habituou com a nova situação, foi bem melhor para ela). E isso me fez refletir. As vezes para sair da zona de conforto e tentar melhorar, você passará por um período quebrando muitos copos. Mas que nem sempre sucessivos erros são prova definitiva de que você tomou uma decisão errada, e sim uma etapa de adaptação necessária para chegar num cenário melhor que o anterior.

Na imagem: inúmeras louças quebradas. Crédito da foto: Cheryl Empey

Na imagem: inúmeras louças quebradas. Crédito da foto: Cheryl Empey

(abre parênteses) Um bom exemplo deste tipo de situação, é a inclusão escolar de crianças com deficiência. Sim, no início será complicado. Muitos tropeços acontecerão. Mas só iremos aprender se insistirmos, e não desistirmos no primeiro copo quebrado. O aprendizado vem com a prática e, como costuma dizer minha mãe, errar é pedagógico. :) (fecha parênteses)

Por isso, antes de cair na tentação de apontar os erros alheios, vale parar e pensar: será que eu não estou errando menos porque também me envolvo menos? Talvez eu não seria mais útil ajudando na louça do que reclamando dos pratos lascados? Será que o preço da inércia e do comodismo não é alto demais, como uma pia lotada de pratos sujos?

Eu seguirei aqui quebrando copos, muitas vezes enfiando os pés pelas mãos, remoendo inseguranças e comemorando vitórias. Pois isso significa que eu me recuso a me acomodar, de tentar ser uma boa mãe e querer o melhor para minha filha.

Nossa vida com… Cacá!

As vezes me sinto abençoada por poder ter contato com tantas famílias legais, e conhecer tantas histórias emocionantes. O “Nossa vida com…” de hoje traz a história do fofo Cacá e sua super família. O primeiro rapaz a aparecer aqui nessa sessão, até que enfim :) Olhem que história linda!

nvccaca

“Na nossa família temos uma tia fonoaudióloga, a tia Rita, que sempre teve um carinho muito grande por pessoas com síndrome de Down. Com dois filhos maiores, a Anna Rita e o Marco Túlio, tia Rita espalhava aos quatro ventos que adotaria uma criança com down, mas poucos davam bola.

Há sete anos, Cacá chegou na nossa família, mais precisamente no dia 29 de março de 2007, já com dois anos de idade. Quando chegou, Cacá ganhou dois irmãos, três mães, um pai e uma legião de tios, primos e avós apaixonados por ele. Já nossa família ganhou luz, uma lição de vida e muito, muito amor. O nome Carlos Daniel foi mantido, mas ninguém o conhece dessa forma. Na verdade, a tia Rita, mãe número um, só usa Carlos Daniel quando está brava. No mais, é o nosso querido Cacá.

Desde o início, ele passou por sessões de fisioterapia, foi para a escola regular e para a Apae. Nesse meio tempo, fez também equoterapia – Cacá tem um carinho enorme por animais – e hoje está aprendendo a nadar. Atualmente, com nove anos – fará dez em janeiro do ano que vem – ele cursa a segunda série do Ensino Fundamental 2, no período da manhã, e à tarde vai para a Apae, ou para a natação. Além de animais, Cacá gosta muito, muito de água. Quando vai a praia, fica por horas e horas no mar, com a pele enrugadinha, e é capaz de beber o oceano todo.

Quem leva o Cacá para a natação é a Má, mãe número dois, e para tirá-lo da piscina é um Deus nos acuda. Ele se diverte e dá a risada mais gostosa quando percebe que está dando trabalho. Quando chega na tia Nena, mãe número três, Cacá mostra para todos o seu lado mais sistemático: abre o armário da cozinha, pega a caneca, o coador, o pó e o açúcar na dispensa para que tia Nena faça o café que, por sinal, ele não vai tomar.

Cacá sempre se faz entender. Quando está com fome, abre a geladeira e pega o que gostaria de comer, normalmente começa pela vasilha de feijão. Faz alguns sons quando quer mais e outros quando não quer, mas ainda não fala.

Além da água e dos animais, Cacá se diverte muito com programas infantis e, principalmente, com música. Fica por horas e horas ouvindo, ou vendo a mesma coisa. Nossa família já sabe de cor e salteado as falas e as músicas de Cocoricó, Shrek e companhia.

Há alguns anos, ele nos deu um baita susto, pegou uma pneumonia forte e muito difícil de ser diagnosticada. Teve que passar 18 intermináveis dias na UTI de uma cidade vizinha, onde descobriram que ele tinha a Síndrome da Angústia Respiratória Aguda (SARA). Hoje ele está bem e fora de perigo.

Ninguém da família imagina mais a vida sem o Cacá. Somos muito gratos por tê-lo em nossas vidas. Muitos tiveram que adaptar a rotina desde a chegada dele. Uma mudança para melhor, por amor.”

Que linda a história, não é mesmo? Quem escreveu foi a querida Cora Dias, prima do Cacá, escondida da família, para fazer uma surpresa, hihi. E isso que ela fala no final do texto posso garantir que é verdade. Ao menos é assim que eu me sinto também, com a chegada da Alice. Agora algumas fotos do querido Cacá:

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Estimular é um barato: massinha comestível!

Tenho um “Nossa vida com…” tão fofinho para colocar no ar, mas ainda não consegui organizar toda a história/fotos. Também não chegaram as fotos da mini-festinha de aniversário que fizemos para a Alice. Então, para o blog não ficar às moscas, que tal mais um “Estimular é um barato”? :D

Dessa vez indicamos… massinhas de modelar caseiras e comestíveis! Não que o objetivo seja comê-las, mas é sempre bom brincar com coisas seguras e menos tóxicas, não é? Essa próxima receita é testada e aprovada, com selo bebê pig de qualidade. As vantagens são as mesmas da tinta natural: são mais seguras, mais baratas e respeitam mais a natureza.

Segue a receita que usamos: (fonte.)

Material
4 xícaras de farinha de trigo
1 xícara de sal
1xícara e 1/2 de água
1 colher de chá de óleo

Modo de Fazer
Numa tigela grande, misturar todos os ingredientes e amassar bem até ficar boa para modelar. Se ficar muito dura, colocar mais água. Se ficar muito mole, colocar mais farinha. Fácil, né? Dependendo da idade do seu filho, dá até para ele ajudar nos preparativos. Para dar cor a massinha, usei corante de alimentos. A dica é fazer um furinho na massa, pingar as gotinhas, e depois fechar e enrolar. Se você entrar em contato direto com o corante, pode manchar a sua mão.

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Nossa experiência
No quesito entretenimento, devo admitir que a Alice prefere brincar mais com tintas do que com massinhas. Acho que a massinha pede um pouco mais de envolvimento e pensamento abstrato, enquanto as tintas você pode brincar se lambuzando, que já é bem divertido. Para envolver mais a Alice na brincadeira, introduzi algumas “ferramentas”, para ela interagir com as massinhas: peguei brinquedinhos dela que martelavam a massinha, furavam, faziam formas. Assim ela se interessou um pouco mais.

Observações
1. Caso seu bebê seja muito pequeno, ou você desconfie de alguma alergia, prefira a massinha natural, sem corantes.
2. A massinha tem validade de aproximadamente 15 dias.
3. Caso você queira usar a massinha por menos tempo, pode usar menos sal na receita. A massinha fica muito salgada! Por um lado isso é bom, pois fica com um gosto bem desagradável. Mas com menos sal uma ingestão acidental em grande quantidade fica mais segura.

E agora algumas fotos da pequena brincando!

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A Alice e o cientista.

Semana passada um famoso cientista deu declarações polêmicas, dizendo ser amoral uma mulher dar a luz a um bebê com síndrome de Down, entre outras bobagens. Várias pessoas postaram a notícia, chocados com tamanho absurdo, e logo a matéria já rodava o facebook. Demorei a fazer um post falando sobre este assunto, pois não queria dar mais ibope e foco para estas declarações. Mas neste caso senti que minha conivência não era construtiva e que eu tinha um compromisso comigo e com minha filha em rebater opiniões como esta.

Obviamente fiquei muito triste com as declarações do sr. Cientista (não citarei seu nome nem sua matéria, ambos já receberam atenção suficiente). Fui inundada de um sentimento de pequeneza, uma sensação de estar fazendo um trabalho de formiguinha, desmistificando a síndrome de Down, e ser esmagada pela visibilidade enorme que uma pessoa pública como a dele tem.

Ao meu ver ele escorrega em dois raciocínios: o de subestimar pessoas com síndrome de Down, tendo uma visão completamente ultrapassada desta alteração genética. Me chateia saber que inúmeras famílias decidirão interromper suas gravidezes, pautadas em declarações como estas, pensando estarem tomando uma decisão informada, sendo que não estão. Estão ouvindo somente um lado dessa história. Um lado falacioso e obsoleto.

O segundo raciocínio equivocado – ainda sob meu ponto de vista – é julgar o valor de uma vida com base no seu desempenho intelectual. Se eu luto por algo aqui no blog, não é para mostrar que a vida de uma pessoa com deficiência é perfeita, e que crianças com síndrome de Down e suas famílias não enfrentarão dificuldades. Luto para mostrar que o amor de uma mãe é maior que isso. E que a validade de uma vida não é e nunca deverá ser pautada no QI desta pessoa.

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Uma das minhas cenas preferidas, de um filme que eu adoro (Gattaca). O irmão “geneticamente inferior” salva o irmão “geneticamente melhorado” de se afogar, pois nada dando tudo de si, ignorando os limites que haviam impostos a ele desde seu nascimento.

Sempre serei defensora dos direitos das mulheres, e nunca julgarei as decisões pessoais que cada família decidir tomar. Eu soube que minha filha tinha síndrome de Down apenas no seu nascimento, então infelizmente nunca saberei com certeza que atitude eu tomaria. Mas assim como defendo a liberdade para que cada família escolha o que fazer nesta situação, também luto para que esta escolha seja iluminada, pautada em informações atuais e verdadeiras.

Então, da próxima vez que vocês lerem alguma declaração sem sentido, retrógrada e preconceituosa como a desse sr. cientista, proponho um acordo. Ao invés de postar o link da matéria dele, divulgue o nosso blog (ou tantos outros legais que existem por aí)! Vem com a gente, escancarar as janelas e pensamentos mundo afora. Você pode estar, sem querer, ajudando uma família a tomar uma decisão de forma mais esclarecida. Já pensou que legal? :)

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Na imagem: Alice brincando com um brinquedo de madeira, feliz da vida, ignorando essa polêmica toda. :)

Estreia: Nossa vida com informação!

Eu estou sempre pesquisando sobre síndrome de Down. Meu interesse é muito diverso: já pesquisei bastante sobre o desenvolvimento da fala das crianças com SD, sobre linguagem de sinais como recurso alternativo e temporário, sobre novos tratamentos e terapias… Mas por uma série de motivos eu nunca me sentia a vontade para falar sobre estas pesquisas pessoais aqui no blog. O primeiro motivo – e mais determinante – é o fato de eu me sentir extremamente desconfortável falando de assuntos dos quais eu não domino completamente. Somado a isso, sempre tive muito medo de que as pessoas encarassem as informações fornecidas aqui como verdade absoluta, e não como um ponto inicial para uma pesquisa pessoal mais aprofundada, em conjunto com um médico ou especialista. E, como terceiro motivo, a maior parte do conteúdo de qualidade que eu encontro, é em inglês. E eu não me sinto a vontade compartilhando um texto que não seja acessível para a maioria das pessoas.

Quem acompanha a Alice pelo facebook, sabe que ela ficou alguns dias internada por causa de uma pneumonia. Enquanto eu a acompanhava no hospital (durante suas sonecas, claro), aproveitei para ler uma série de textos fantásticos, indicados pela Christiane Aquino (uma das fundadoras do Movimento Down). Minha animação com aqueles textos foi tão grande, que eu decidi traduzi-los, para mostrar para minha família. Quando a Chris ficou sabendo que eu estava fazendo estas traduções, me incentivou a colocar o conteúdo aqui no blog também, para outras famílias terem acesso a estes textos. E, assim, eu finalmente criei coragem de utilizar este espaço para falar também sobre estes assuntos médicos/terapêuticos.

Entendendo a Tireóide

O primeiro texto que eu traduzi, e que está sendo bem útil para mim neste momento, é sobre o metabolismo do hormônio da tireóide na síndrome de Down. Através dele percebi que precisamos ter uma visão muito mais integrada ao diagnosticar, tratar e monitorar a função da tireóide dos nossos filhos com SD. Para facilitar, preparei um PDF com o texto traduzido. Caso encontrem algum errinho de português ou de tradução, peço que me avisem que corrigirei prontamente. Espero que seja útil e que gostem! :)

1. O metabolismo do hormônio da tireóide na síndrome de Down.
Faça o download aqui do artigo traduzido.
Para quem domina inglês, segue o link para o artigo original:
http://www.downsyndrometreatment.net/thyroid.html

Para complementar o artigo acima, traduzi mais um texto interessante.

2. O seu médico conhece os novos patamares para testes laboratoriais de TSH?
Faça o download aqui do artigo traduzido.
Para quem domina inglês, segue o link para o artigo original:
http://www.downsyndrometreatment.net/thyroid.html

Aviso Importante: Todos os artigos indicados e traduzidos pelo blog NVCA não devem ser encarados como conselhos médicos ou diagnósticos finais. Consulte sempre o seu médico. Ele é o profissional adequado para auxiliá-lo no melhor diagnóstico e tratamento.

Caindo pelas tabelas

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Na imagem: desenho da alice presa dentro das barras de uma tabela de desenvolvimento.

Quando ele vai olhar para mim? Quando ele vai sorrir? E “mamãe”, com quantos meses ele irá falar? Quando se é pai de primeira viagem, todas essas dúvidas são muito comuns, e as famosas tabelas do desenvolvimento servem como um bom guia para nos oferecer uma noção geral do que é uma evolução típica. Estas referências também são úteis para indicar se algo não está correndo bem, e iniciar o quanto antes a estimulação essencial, aproveitando um momento único de plasticidade cerebral.

Mas e quando algo que foi feito para nos orientar de forma geral, oferecendo uma noção básica de desenvolvimento, apontando eventuais áreas onde podemos oferecer estímulos direcionados e saudáveis, começa a se tornar um grilhão? E todo e qualquer pequeno atraso já serve como motivo de aflição e desespero? E quando percebemos, aquela tabela que inicialmente foi criada para nos ajudar, virou uma verdadeira prisão.

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Na imagem: Alice achando uma brecha e conseguindo escapar.

Quando recebemos a notícia que seremos pais de crianças com deficiência ou atraso no desenvolvimento, o perigo de nos atermos excessivamente às tabelas se torna maior ainda. Nossos filhos mal nasceram e nós já indagamos aos médicos: quando ele irá andar? irá falar? dirigir um carro? Ufa! Esquecemos que mesmo com deficiência ou atraso, cada criança é única e tem um ritmo próprio, muitas vezes projetamos esta ansiedade nos nossos filhos e acabamos… caindo pelas tabelas!

Proponho uma brincadeira para aliviarmos um pouco a nossa ansiedade em relação ao desenvolvimento dos nossos pequenos: uma tabelada bem humorada e personalizada! Bolei aqui rapidamente uma para a minha Alice, e vejam que divertido.

Primeiro dia de vida: Virou o amor das nossas vidas.
8 meses: Inventa o 360º da alegria, gira sentada quando está muito feliz.
1 ano: Não joga mais a mamadeira longe quando termina de beber o suco.
1 ano: Começa a se locomover parecendo um touro.
1 ano e 7 meses: Come todos o gizes de cera da casa.
1 ano e 9 meses: Começou a engatinhar no estilo moon walking, de ré.
1 ano e 9 meses: Começou a falar em código morse.

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Na imagem: Alice se divertindo, usando as linhas do gráfico como um escorregador.