Filho é filho, punto e basta!

O que importa é ouvir. A voz que vem do coração. Pois seja o que vier, venha o que vier.” (Canção da América).

Eu recebo tantas mensagens legais pelo blog ou pelo facebook. Do meu jeito meio atrapalhado, tento na medida do possível responder a todos. Mas recentemente recebi uma mensagem tão especial que logo me chamou a atenção. Na mensagem a pessoa contava sobre como tinha já perdido dois bebês, sobre sua família, e sobre como estava pensando adotar uma criança com síndrome de Down. Ela gostaria de conversar comigo para amadurecer essa decisão de forma consciente.

Que responsa!

Fiquei um tempo pensando, caramba, como responder uma mensagem dessa? Depois eu me toquei: eu não sabia responder como seria adotar uma criança com síndrome de Down porque eu não passei por essa experiência, e que seria muito mais coerente convidar alguém que tivesse vivido isso para me ajudar a responder. Logo lembrei da minha querida amiga Juliany, que adotou o Ber há 4 anos, e a chamei para escrever um post-resposta aqui no blog. 🙂 A ideia era que ela desse um pequeno depoimento, mas a July foi além e escreveu um texto lindo. Então bota “Canção da América” pra ouvir, prepara o lenço, e vem conhecer a história desses dois.

“Eu gosto de me expressar, falando ou escrevendo. Falo muito, falo rápido, falo de tudo, falo sem medo, falo sem filtro de saída. Sou inclusiva reconhecida por isso. A “louca”. A “desbocada”. A “sincera”. A que “fala na cara e fala mesmo”.

Mas nunca falei muito sobre meu filho adotivo e com síndrome de Down (SD). Não de forma introspectiva, direta ou exclusiva. É quando falam de “adoção gay”, é quando falo sobre a síndrome, nunca sobre “A minha vida com Bernardo”, a despeito dos pedidos da minha amiga Carol Rivello, do blog “Nossa vida com Alice”.

Não saberia dizer porquê. Acho que a aura de nobreza que envolve a minha atitude, aos olhos dos outros, me desestimula. Não usaria meu filho pra atiçar minha já enorme vaidade, até porque não vejo nobreza no nosso amor, acho ele tão natural e comum que não merece nenhum destaque. Ninguém ganha “ooohhh” por ter filho, por que eu deveria ganhar?

Mas eis que uma mulher que já perdeu duas gestações escreveu pra Carol dizendo que sentia em seu “coração um enorme desejo de adotar um bebê com SD” e que gostaria de conversar “para amadurecer esta decisão de forma consciente”, então achei que esse seria um bom motivo pra escrever sobre esse assunto. Não vou escrever o que o meu filho significa pra nossa família ou sobre a nossa rotina porque senão viraria um livro, então vou focar apenas na questão da adoção e da síndrome, pra atender esse pedido tão especial.

Eu sempre soube que teria filhos adotivos. Quando eu vi a propaganda do Milton Nascimento* pela primeira vez, chorei por dentro. Em 2008 convidei minha irmã e meu cunhado pra batizar meu filho adotivo, filho esse que só nasceu em 2011. Uma coisa eu digo: se você sente que terá um filho adotivo, você já tem um filho por aí. Talvez ele ainda não tenha nascido mas talvez ele já esteja te esperando e – acredite – sentindo o mesmo. A questão é se entregar ao destino e ir procurar seu filho, sem medo desse amor e, principalmente, sem fantasiar como ele será. E quem já adotou sabe do que estou falando: é seu filho. Punto e basta! Nunca “filho adotivo”. É FILHO. Só. A identificação é imediata. Você vai saber quando encontrá-lo, confia em mim. É só seguir o coração, conhecer abrigos, e num belo dia, vocês se reconhecerão, pelo olhar e pelo amor. Quando peguei o Bernardo nos braços, lá na maternidade onde foi deixado pra me esperar, fui capaz de sentir as endorfinas pós parto no sangue. A tempestade de ocitocina, o amor fervendo nas veias, a garra de ir pra justiça lutar por ele, roubá-lo se fosse preciso. Porque era MEU FILHO e, como mãe, era meu dever fazer por ele tudo que fosse preciso.

Mas nunca imaginei como seriam meus filhos “de coração” (sim, eu sei que o Bernardo não será o único), só tinha uma certeza: não teria coragem de adotar uma criança com algum “problema”. E eu sei disso porque em 2010 conheci um casal num fórum espírita que tinha uns 5 filhos adotivos, todos com alguma deficiência ou doença. Down, autista, soropositivo, cego, cadeirante… tinha “de tudo” naquela casa. Achei a história deles belíssima e mandei um email elogiando o casal pela coragem que eu não tinha. Mas o amor faz a gente perceber que a diferença entre o que se deseja e o que se faz é o primeiro passo. E quando o Bernardo chegou, a caminhada começou de forma tão simples e natural que a expressão “dança da vida” nunca foi tão pertinente.

Como eu tinha a preocupação imediata de conseguir ganhá-lo na justiça eu meio que nem percebi a SD como questão. Eu precisava tê-lo, o resto eu resolvia depois. “Ele vai exigir muitos cuidados, você entende isso?” Óbvio que entendo, você não cuida do seu filho também? “Ele trará gastos com fonoaudióloga e fisioterapeuta”. Ué, e você não gasta com aula de inglês e natação? Minha vontade era resumir qualquer conversa questionando minha decisão com um “cala essa boca, não vou abortar meu filho já nascido porque você acha isso ou aquilo, me dê parabéns e sai da minha frente que eu tenho uma batalha pra ganhar”. Pra minha sorte como mãe do Bernardo – e hoje em dia, decepção enquanto “mãe adotiva” – a maioria dos casais inscritos para adoção colocam no formulário que não aceitam crianças com nenhuma doença física ou mental. Eu não sei onde os casais que engravidam assinam tal formulário, e até que ponto essas pessoas estão procurando por crianças pra criar e não por filhos para amar. Mas, tendo em vista meu passado, até os entendo, embora hoje eu saiba que eles estão enganados. Mas isso é papo pra outra conversa.

Lógico que, assim que a guarda saiu, o fato de ele ter SD surgiu. As preocupações, os cuidados, a rotina de consultas, exames, leituras. Às vezes dá um desespero do tipo “Meu Deeeeuuusss, não dou conta, estou negligenciando meu filho, sou péssima mãe!!!”. Mas aí me pego dando bolacha em vez de insistir na fruta pro meu outro filho e penso a mesma coisa. Então, no “frigir dos ovos”, não tem filho com ou sem síndrome. Tem filho, cada qual com suas peculiaridades que os tornam únicos, necessidades a serem atendidas e dificuldades pra serem superadas.

Posso dizer que somos uma família como qualquer outra. Exatamente igual. Mesmas crises, mesmos problemas, mesmas alegrias e o mesmíssimo amor. E sempre incentivo quem sente esse “chamado”, essa necessidade por construir um lar, que vá atrás desse sonho. Tire o foco das dificuldades, foque nas realizações, porque elas invariavelmente virão. Porque a família propaganda de margarina é feita pelo o que a gente sente, constrói e vive, e não pelo o que a gente aparenta, muito menos pelo o que pensam de nós.

Mas… fala a verdade aí: até que a gente aparenta super bem, você não acha? 😉

Na imagem: Juliany e Rodrigo, com seus filhos Ber e Leo no colo.

Na imagem: Juliany e Rodrigo, com seus filhos Ber e Leo no colo.

*Propaganda em que ele fala que algumas pessoas falam que crianças adotivas dão mais trabalho, mais problemas, mas que um filho adotivo pode trazer grandes alegrias – e aparece ele ganhando o Grammy. 😉

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Nené!

Na imagem: Montagem de 4 fotos da tia "nené" com a Alice.

Na imagem: Montagem de 4 fotos da tia “nené” com a Alice.

Basta alguém apertar o interfone ou o telefone tocar, a resposta imediata da Alice é sempre a mesma: “nené?” Explico: Nené é diminutivo de Néinha, que por sua vez é o apelido da família para minha irmã Stella. (Stella, um nome tão bonito, e a gente vai lá e a chama de Néinha…) E a Alice tem paixão por ela. Desde bebê ela teve pela tia uma empatia e um amor tão gratuito, que parece até encontro de almas. Pedi então para a nené escrever um post para o blog, falando sobre o nascimento da Alice, o que ela sentiu quando recebeu a notícia da sd e sobre a amizade das duas. Dedico o post a todos os tios e tias de crianças com síndrome de Down! 🙂

“Minha tulipinha.

29 de agosto de 2012. Fora esta a data proclamada por mim para o nascimento de minha sobrinha. A família fez um bolão e acertei, mas confesso que nem eu mesma esperava. De fato, eu estava em Blumenau, onde morava, quando recebi um telefonema de minha irmã avisando que faria uma cesariana naquele mesmo dia, pois a Alice poderia entrar em sofrimento fetal.

Saí correndo do trabalho, peguei minha filhota no colégio, compramos uma roupinha de Frida neném para a Alice (olha as ideias!) e zarpamos para Floripa. Lembro-me bem de ter me encontrado com o Gustavo em Itapema e seguirmos juntos, na ânsia de chegar antes de ela nascer. Chegamos pouco depois. À hora exata de seu nascimento tocava Coldplay no carro “She was just a girl, she expected the world…

Cheguei esbaforida à maternidade e eles haviam acabado de mostrar Alice para toda a família por aquele vidro. Eu não vi! Todo mundo comentando sobre que linda ela era e eu havia perdido esse momento! Fiquei arrasada. Esperei algum tempo até que minha irmã e a pequena descessem para o quarto.

Quando finalmente a vi, achei-a muito parecida com o Thomas. Os olhos mais puxados, por uma fração de segundos pensei na síndrome, mas um longííínquo lampejo. Achei-a linda de viver. Dei um beijo na minha irmã, lembro que comentei feliz “Lóu, agora você é mamãe!” e voltei a Blumenau, pois não podia faltar ao trabalho.

No outro dia de manhã, estava falando ao telefone fixo, quando meu celular tocou. Era a minha mãe, precisava falar comigo. Como vi que ela estava insistindo, larguei a outra ligação e fui ver o que era. Ela me disse “Neinha, tens o telefone da tia Dete (pediatra, grande amiga)?” Na hora eu pensei, “deu alguma coisa na Alice”, depois, a voz da minha mãe pausada… cheguei a pensar no pior. Ela me disse “A nossa Alicinha… Stella, há suspeitas, não, não, a Carolina está aqui dizendo que já é confirmado…que a nossa Alicinha… (e eu tremendo do outro lado da linha) tem síndrome de Down”. Eu sentei, respirei fundo, chorei muito, nem lembro mais o que ela falou depois disso e nem o que eu falei para ela. Hoje eu tenho tanta vergonha por ter chorado! Só pensava na minha irmã, pensava no que seria da vida dela. Lembro-me de ter, pateticamente, pensado “Ai…ela nunca mais vai poder viajar”. Quem é que pensa uma coisa dessas? Que tosquice! Como a ignorância nos poda, não é mesmo? O medo do desconhecido estava bem ali na minha frente.

Já era fim de semana e a família se revezava na maternidade para dar apoio não só com os cuidados, mas também com energia boa aos novos papais. Aquela salinha de espera transformara-se em uma grande e acolhedora terapia de grupo. Mais calma, comecei a pesquisar sobre famílias que tinham crianças com a síndrome. Achei o blog “A vida com Logan”, aquela primeira resposta à minha pesquisa me deu uma injeção de ânimo! Mostrei o blog para a amiga Naninha, sua irmã Helô me ligou, disse que eles seriam felizes, me abraçou à distância. A geneticista apareceu no quarto para conversar com os pais, pegou a Alice no colo, disse que sim, ela tinha a síndrome (apesar de o resultado do exame só ter saído depois), e a elogiou muito. Não a tratou com diferenças, alarmismos, sabe? Era uma neném! A conversa dela foi tão assertiva e positiva! Melhor do que isso só a phodástica Dra. Juliany, que apareceu com sua bota de salto diva naquela maternidade, cheia de alto astral, toda bonita, arrumada, profissional, humana! #julianyteamoforever

Chegando em casa, fomos recebidos com grande afeto pelos dindos, que fizeram uma faixa de “Bem-vinda, Alice”. Um delicado sorriso da minha irmã apareceu. As nuvens estavam começando a ir embora.

Nesses primeiros tempos eu só via a Alice aos fins de semana, já que morava em outra cidade. A cada vez que eu vinha, as coisas mostravam-se melhores (Alicinha está conseguindo mamar! Alicinha sorriu! Alicinha foi para a aula!). Era minha sobrinha crescendo em um ambiente repleto de amor e carinho.

Desde que nasceu, sentimos um amor muito louco uma pela outra. Uma de suas primeiras palavras foi Nené (euzinha!). Às vezes as pessoas confundiam com  “n..n..” que ela usava para todo e qualquer objeto. Sempre pensei: “Nené” é uma coisa, “n..n..” é outra! Não vem que não tem! 😉 é um amor gratuito, não sei trocar fralda, colocar para dormir, não sei se cuido direito, mas sei que a amo como uma filha.

A vida da minha irmã não acabou, pelo contrário, recomeçou, e ainda mais bonita. Carol está feliz, trabalha, tem novos projetos, viaja. Tudo no tempo que pode, como toda e qualquer outra mãe. O Thomas também! Feliz profissionalmente e, em casa, curtindo seu cafofo rock n’ roll onde toca guitarra e a Alice toca bateria.

Desde então a nossa casa é só alegria. Voltei a Florianópolis faz um ano, podendo curtir mais a minha sobrinha, que me visita todos os dias pela manhã. Eu adoro porque ela chega, esparrama-se no meu sofá, come suas bolachinhas (esfarela tudo, mas ela PODE), vê Popó (Galinha Pintadinha). Brinca de tirar selfie com o celular, dançamos dança do ventre (ela se amarra naqueles cintos cheios de medalhinhas), acha as minhas caixas, tira tudo de dentro, pega os meus sapatos, penteia os meus cabelos, agarra meu celular e fala “U-ú?”, que é Gugu (meu marido). É super esperta e confiada, sabe que eu sou aquela que faz as vontades mesmo e tira proveito disso!

Quando eu pego meu afilhado no colo (o mano), ela me olha with lasers, juro. Dava para fazer um meme. E essa é mais uma das coisas que eu gosto na Alice, a personalidade! Seu jeitinho único e encantador.

Alicinha, és o sol dessa família! Nunca as tulipas foram tão lindas.
Te amo muito! Sua Nené <3″