Fora da casinha

(Texto publicado originalmente no blog Janela com Vista. Confira o belo projeto Outro Olhar, criado pelo Instituto Alana)

Diversas vezes tenho receio de expor algumas opiniões ou compartilhar certas expectativas que tenho para minha filha e para pessoas com síndrome de Down. Às vezes, quando eu divido alguns sonhos que tenho para ela, noto em meu interlocutor uma expressão de espanto – ou pior, pena. Algumas vezes, a pessoa tenta me dissuadir das minhas esperanças, explicando que estou sendo irrealista. Em outras, prefere nem dialogar, no estilo “não discuto com louco”.

Mas ser tida como louca pode não ser assim tão ruim. Aliás, ser um pouco fora da casinha pode ser inclusive necessário. Muitas vezes uma boa dose de falta de noção é o que precisamos para sair da inércia, chutar o conformismo pra longe e sacudir a poeira da nossa realidade atual.

Se hoje posso criar minha filha em casa, comigo, ao invés de tê-la enviada para uma instituição, foi porque uma família “sem noção” enfrentou as regras da época e resolveu criar seu filho com deficiência em casa.

Se hoje minha filha pode estudar em um colégio regular, foi porque uma mãe, diversos anos atrás, foi “louca”, acreditou no potencial de sua filha e – em um ato de coragem e fé – fez sua matricula em uma escola comum.

Se hoje jovens com síndrome de Down estão se formando no ensino superior, trabalhando, casando, foi porque uma família “fora da casinha” um dia pensou: “Ué, e por que não?”.

“Por não saber que era impossível, foi lá e fez”. Vamos todos ser um pouco fora da casinha e mirar em objetivos cada vez maiores? Quando faço isso, não é somente pensando no futuro, brigando pela Alice e por crianças que nem nasceram ainda. Mas é também olhando para trás, uma forma de respeitar e continuar um trabalho iniciado muito antes de mim.

Se para alguns é loucura acreditar em nossas crianças, para mim não há nada mais sensato.

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